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Um estado compacto, uma economia densa: Santa Catarina na era da inteligência artificial

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Escrito por

Lucas Matheus marucci

Business10 min07 de jul. de 2026

A força de um território concentrado

Quando pensamos em dinamismo, eficiência e cultura empreendedora no Brasil, Santa Catarina aparece como um caso particular.

Não pelo tamanho do território.

Mas pela densidade do que acontece dentro dele.

Em um estado relativamente compacto, convivem cadeias produtivas diversas, cidades fortes, culturas regionais marcantes e diferentes formas de construir negócios. A força catarinense não depende de uma única vocação econômica: ela aparece no agronegócio, na pesca, na indústria, na logística, no turismo, no mercado imobiliário, na tecnologia e em serviços especializados.

O Oeste sustenta alimentos, proteína animal e cooperativismo.

O Vale do Itajaí combina indústria, logística, comércio e tradição têxtil.

O litoral reúne portos, pesca, turismo, mercado imobiliário e cidades em movimento, como Itajaí, Florianópolis e Balneário Camboriú, casa da Beyonders.

A Grande Florianópolis concentra tecnologia, inovação e serviços especializados.

O Sul combina indústria, energia, mineração, cerâmica e cultura costeira.

Santa Catarina é pequena em território, mas densa em capacidade.

Essa talvez seja uma das melhores formas de entender o estado.

Sua força não está apenas no volume, mas na combinação. Em poucas horas, é possível atravessar litoral, vales, montanhas, zonas industriais, regiões agrícolas e cidades moldadas pelo turismo, pela produção ou pela tecnologia.

Essa variedade ajuda a explicar por que Santa Catarina se desenvolveu de forma tão distribuída: cada região assumiu vocações próprias, sem perder conexão com o conjunto.

Um estado formado por muitas camadas

Essa densidade também é cultural.

Antes das formações migratórias mais recentes, Santa Catarina já era território de povos originários, com presença Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng, além de matrizes ligadas ao universo tupi-guarani no litoral.

Depois, vieram outras camadas. O litoral passou a carregar fortes influências açorianas, enquanto o interior preservou traços alemães, italianos e de outras formações migratórias.


Densidade como tese de mercado

Santa Catarina reúne uma combinação rara: geografia diversa, cidades médias fortes, setores industriais especializados, cadeias maduras de agronegócio, infraestrutura logística, cultura empreendedora e ecossistemas de inovação.

Em vez de concentrar tudo em um único eixo, Santa Catarina opera de forma multipolar.

Há mais pontos de apoio.

Mais caminhos de adaptação.

Mais repertório econômico disponível.

Essa lógica aparece com clareza na organização dos seus polos produtivos. O estado não é definido por uma única especialidade, mas por uma rede de vocações regionais que se complementam.

Isso vale para a indústria, para o agronegócio, para a logística, para os serviços e, cada vez mais, para a tecnologia.


SC_PRODUO_POLOS.png

Santa Catarina distribui sua força econômica por diferentes polos produtivos, formando uma estrutura multipolar e complementar.


O Porto de Itajaí como expressão dessa lógica

Essa densidade também aparece na infraestrutura logística.

O Complexo Itajaí–Navegantes encerrou 2024 com 14,17 milhões de toneladas movimentadas e 1,279 milhão de TEUs.

No mesmo período, os Portos do Paraná movimentaram 66,77 milhões de toneladas e 1,558 milhão de TEUs.

A comparação é reveladora.

Com aproximadamente 21% da tonelagem total de Paranaguá, o Complexo Itajaí–Navegantes alcançou cerca de 82% da sua movimentação de contêineres.

O ponto não é sugerir superioridade geral de um porto sobre o outro.

É mostrar algo mais interessante:

Dentro de uma estrutura total de cargas muito menor, Itajaí–Navegantes sustenta uma relevância notável em contêineres.

Isso diz muito sobre o perfil catarinense.

Coordenação, especialização logística e capacidade de operar em alta intensidade sem depender de gigantismo territorial.

Não por acaso, o Vale do Itajaí se consolidou como uma das regiões mais expressivas do país em logística, comércio exterior e circulação de cargas.

Aqui, densidade deixa de ser conceito.

Vira fluxo.


ITAJAI_NAVEGANTES.png

O Complexo Itajaí–Navegantes mostra como especialização e intensidade operacional podem gerar relevância logística mesmo em estruturas mais compactas.


Tecnologia como amadurecimento dessa eficiência

O mesmo padrão aparece na tecnologia.

Santa Catarina não se tornou um polo tecnológico por acaso.

Segundo o Observatório ACATE 2025, o setor de tecnologia catarinense gerou R$ 42,5 bilhões em receita em 2024, com crescimento de 11% em relação ao ano anterior, acima da média nacional de 7,7%.

A tecnologia já representa 7,75% do PIB catarinense, a terceira maior participação estadual do país. O estado também alcançou a quinta posição nacional em faturamento tecnológico.

Esses números indicam uma mudança importante.

Santa Catarina já não é apenas uma economia produtiva que consome tecnologia.

É também um território capaz de criar tecnologia aplicada às suas próprias demandas:

  • indústria;
  • logística;
  • gestão;
  • comércio;
  • serviços;
  • agronegócio;
  • novos produtos digitais.

SC_E_A_IA.png

Santa Catarina cresce acima da média nacional em tecnologia e consolida o setor como parte relevante de sua economia.


Florianópolis é a expressão mais visível dessa camada.

No ranking de ecossistemas da StartupBlink, a cidade aparece na posição #247 no mundo, #6 no Brasil e #14 na América do Sul, com 214 startups e aproximadamente 18 startups para cada 100 mil habitantes.

Mais do que uma boa posição em ranking, isso mostra que a capital catarinense consolidou visibilidade internacional no ecossistema de inovação.

Florianópolis funciona como vitrine.

Mas a força de Santa Catarina está no conjunto.

A tecnologia catarinense não depende apenas de uma capital bem posicionada. Ela se espalha por um território que já havia transformado organização, especialização e eficiência em vantagem competitiva.


FLORIPA.png

Florianópolis funciona como vitrine internacional da inovação catarinense, mas a força tecnológica do estado está distribuída por um território mais amplo.


A IA encontra um estado já preparado

É por isso que a inteligência artificial encontra terreno fértil em Santa Catarina.

O estado já reúne empresas técnicas, cadeias maduras, operações enxutas e setores que dependem de precisão para competir.

Nesse contexto, a IA não aparece apenas como tendência.

Ela surge como continuidade de uma economia que já aprendeu a ganhar densidade sem depender de excesso de escala.

No Brasil, a Pesquisa de Inovação Semestral do IBGE mostrou que a proporção de empresas industriais utilizando IA saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024.

A tecnologia já entrou em áreas administrativas, operações comerciais, cadeias produtivas e no desenvolvimento de produtos e processos.

Em Santa Catarina, essa transição também aparece no mercado de trabalho.

Um estudo da Secretaria de Estado do Planejamento indicou que a IA generativa deve influenciar 1,24 milhão de empregos no estado, equivalente a 27,6% das ocupações expostas em algum grau.

A leitura mais relevante aqui não é de choque.

É de complementaridade.

Boa parte desse impacto tende a ocorrer em faixas de exposição moderada, nas quais a tecnologia amplia produtividade, precisão e eficiência.


IA_NA_ECONOMIA_REAL.png

A adoção de IA deixa de ser apenas uma tendência tecnológica e passa a se conectar com produtividade, ocupações e operações concretas.


A questão central, então, deixa de ser apenas o acesso à IA.

Passa a ser saber onde ela deve entrar.

Em muitas empresas, essa oportunidade não aparece de forma evidente. Pode estar em uma rotina manual que consome horas da equipe, em uma base de dados subutilizada, em um atendimento mal direcionado, em uma etapa comercial pouco monitorada ou em um processo interno com baixa rastreabilidade.

Também pode estar em um produto digital que precisa de uma camada mais inteligente.

Por isso, o uso eficiente de IA exige mais do que escolher uma ferramenta.

Exige leitura de processos, visão técnica, entendimento operacional e capacidade de transformar uma possibilidade tecnológica em solução aplicável.


O caso DR Aromas & Ingredients

O caso da DR Aromas & Ingredients — antiga Duas Rodas —, em Jaraguá do Sul, ajuda a tornar esse movimento visível na prática.

A multinacional catarinense desenvolveu sua própria plataforma de inteligência artificial, a DRICA, aplicada em quatro frentes:

  • projetos de clientes;
  • pesquisa e desenvolvimento;
  • previsão de vendas;
  • inteligência de mercado.

Segundo a empresa e a FIESC, o uso da plataforma contribuiu para reduzir estoques, ampliar a capacidade produtiva e aumentar a satisfação dos clientes.

O resultado apareceu nos números.

A empresa registrou 17% de crescimento no faturamento no início de 2024, impulsionado por vendas e pelo uso de IA.

Em 2023, já havia superado R$ 1,6 bilhão em receita, com 23% desse resultado vindo do portfólio de inovação.

O que importa aqui não é o discurso sobre transformação digital.

É a implementação.

Nesse caso, a IA não aparece como uma camada decorativa de tecnologia. Ela reorganiza decisão, planejamento e capacidade operacional dentro de uma indústria real.

Esse é o tipo de aplicação que importa: tecnologia deixando o campo do discurso e se transformando em método.


DRICA.png

A DRICA mostra a IA aplicada dentro de uma operação industrial real, conectando projetos, P&D, previsão de vendas e inteligência de mercado.


Do acesso ao domínio

O acesso à inteligência artificial será cada vez mais simples.

Ferramentas, agentes, copilots, automações e modelos generativos já começam a se espalhar rapidamente.

Isso muda o problema.

O desafio deixa de ser apenas acessar a tecnologia.

Passa a ser saber onde ela realmente melhora a capacidade de uma empresa operar, decidir, vender, atender, produzir ou escalar.

Essa transição do acesso para o domínio é decisiva.

Qualquer empresa pode começar a usar IA de forma isolada. Incorporar IA de maneira metódica, conectada à realidade do negócio, aos sistemas existentes, aos dados disponíveis e aos objetivos operacionais exige outro tipo de competência.

Nesse ponto, a discussão deixa de ser apenas sobre tecnologia.

Passa a ser sobre construção de capacidade.


A Beyonders como expressão desse DNA

A Beyonders nasceu em Santa Catarina, no litoral do estado, em um ambiente marcado por movimento, adaptação e capacidade empreendedora.

Essa origem conversa diretamente com a forma como construímos tecnologia:

  • estrutura enxuta;
  • alto padrão técnico;
  • proximidade com a operação real das empresas;
  • disposição para resolver problemas complexos com método e inteligência aplicada.

Na Beyonders, a IA não entra como discurso de inovação.

Ela entra como parte do método.

Ajuda a compreender operações com mais profundidade, acelerar análises, estruturar caminhos técnicos e transformar problemas complexos em soluções mais precisas.

Essa é a mesma lógica que enxergamos no próprio estado:

Fazer muito com estruturas relativamente compactas, sem simplificar a complexidade.

O ponto não é adotar tecnologia como adesão estética.

É transformá-la em capacidade prática.


Um estado preparado para a próxima camada

Santa Catarina talvez seja um dos lugares mais interessantes do Brasil para observar essa transição.

Um estado multipolar, relativamente compacto, mas completo.

Um território de contrastes e complementaridades.

De paisagens diversas, culturas distintas, cadeias produtivas especializadas e diferentes formas de construir.

É justamente por isso que a inteligência artificial encontra terreno tão fértil aqui.

Ela chega a um estado que já sabe operar com densidade, eficiência e adaptação.

E quando encontra esse tipo de base, deixa de ser apenas novidade tecnológica.

Torna-se uma nova camada de capacidade real.


Lucas Marucci

Executivo de Desenvolvimento de Negócios e Inovação na Beyonders

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